13 junho 2008

Kafka fotografa


“Você é muito saudável, não vai entender isto.” Assim escreveu Kafka ao enviar a sua irmã um manuscrito de Um médico rural, conjunto de contos escritos entre 1916 e 1919. Publicado postumamente, o livro (Editora Brasiliense, tradução de Modesto Carone), a julgar pelo seu tamanho, é modesto: são quatorze estórias condensadas em pouco mais de 80 páginas. No conjunto, entretanto, estes pequenos relatos revelam um novo e ainda mais instigante lado do escritor tcheco, freqüentemente elencado entre os principais do século XX.

Franz Kafka (1883-1924), tcheco de nascimento e alemão na linguagem, costuma ser famoso por seus romances, como O processo, O castelo, ou, sobretudo, a novela A metamorfose. Nessas obras, conta histórias frenéticas e agoniantes de personagens presos em problemas que não conseguem compreender ou que, quando o conseguem, são de difícil explicação e exteriorização. São histórias que detalham, em enorme habilidade narrativa, trajetórias de indivíduos imersos no mundo moderno. Na busca da sua interpretação, estudiosos delineiam a reificação da vida, o assujeitamento e a burocracia como alguns dos motes centrais da inspiração estética kafkaniana.

Um médico rural, por sua vez, revela outra frente criativa do tcheco. A diversidade marca a obra: há contos relâmpago (como A próxima aldeia, de um parágrafo apenas) e pequenos narrativas (Um relatório para a academia, 11 páginas). Há contos ao romanesco estilo kafkaniano, como a aventura noturna de um médico rural no atendimento a um enfermo (a qual dá título ao volume), bem como o obscuro A preocupação do pai de família, que apresenta em duas páginas a reflexão sobre Odradrek, aparentemente um ser mecânico. Quanto a narradores, há os tradicionais, como o médico supracitado, bem como contabilistas, cuja atitude é uma grande enumeração de itens e pessoas (como em Uma visita à mina). Lembrando que neste livro o meu conto preferido é o Diante da Lei.

Nessa variabilidade, porém, há unidade: o estilo atemporal e quase fotográfico que Kafka assume. Diferentemente da narração minuciosa e nauseante dos seus romances, que imprime uma sensação de movimento (mesmo que este se mostre inútil), Um médico rural aproxima-se de um plácido álbum de fotografias, onde Kafka exibe percepções congeladas do mundo. São narrativas instantâneas, que paralisam espaço, ação e tempo, pintando os componentes de cada cena, seja ela uma matança no meio do deserto, uma apresentação circense ou a estada de um imperador na cidade. Em alguns contos, sejamos justos, há estória, isto é, acontecimentos que se sucedem; mas o que fica, ao cabo destes, é o sentimento fotográfico, da cena descrita naquilo que, afora a movimentação e correria, tem a oferecer.

Kafka, ao que se sabe, não foi grande viajante; viveu ancorado a Praga. Sua casa, contam os que por lá passam, surpreende pelo aperto quase desumano. Mas a sensação de prisão, sem dúvida uma das marcas do seu legado literário, é posta em xeque em Um médico rural, pois, em termos de variedade de espaço e de localização, o livro esbanja liberdade em comparação aos romances. Mas é o narrador de Um médico rural mais livre? As despretensiosas fotografias libertam o personagem? A resposta à obra, afora simples considerações sobre os contos, só pode ser proposta pela divagação feita do próprio leitor – e isso depende, conforme já alertado por Kafka, da saúde espiritual de cada um.

Créditos: Miguel Florêncio

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